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Twist ou Twitter

Publicado por Tulio em 30 de junho, 2009.

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O leite derramado, do Chico, abre os links da memória

Esta crônica é um filme-abacaxi dedicada ao Boco Moco, à Maria Vai com as Outras, ao Zé das Couves, ao Cerca Lourenço e a todos aqueles que já não fazem mais sentido, mas que outro dia vieram à baila quando alguém, praticando o universal esporte de meter o pau no alheio, disse que um certo sujeito “abria links demais” nas conversas.
Eu percebi, de chofre, que a pessoa estava atualizando o Chato de Galocha para a língua da informática. Achei que o fazia bem. Ninguém mais conhece o Chato de Galocha, o Amigo da Onça, o Fulano de Tal, o Zé Ninguém, o abominável homem das neves, o cara de fuinha e muito menos a Maria Madalena dos Anzóis Pereira, esses nossos antigos vizinhos. É preciso dar novos nomes aos mesmos bois de sempre. Chamá-los de estróina, mandraque, biltre ou arigó é insistir em construir a casa da Mãe Joana em 2009.

Chico Buarque fez o inverso. Deu nome velho, “Leite derramado”, ao seu novo livro e me obrigou outro dia, numa roda de estagiários, a explicar o que era aquilo.

O leite integral conservado na caixinha acabou com o ritual de fervê-lo. Em seguida, fez com que as novas gerações ficassem privadas do espetáculo do leite que, fervendo, escapulia da panela e se derramava pelo fogão. Era uma das bagunças da Casa do Noca. Acabaram todos. O leite derramado, a Casa de Noca, o boquirroto, o paspalho, o barnabé, o matusquela, o Chico Válvula Presa e, numa civilização em que todos ou estão de óculos ou de lente, foi-se também a ofensa do “Quatro olho”.

Esta crônica do tipo sossega-leão vai dedicada a todos eles. Acima de tudo, sem que ele suba nas tamancas vendo qualquer ironia e chuva de canivete nisso, esta crônica carraspana vai para Chico Buarque. Ele não chora sobre o leite derramado e segue em frente com uma literatura de estruturas novas. Está sempre virando o disco, outra expressão que exige a abertura de novas janelas na tela para explicar como se ouvia música não faz muito tempo.

As pessoas mudaram. O Jeca Tatu é presidente e o nome perdeu o sentido pobre. O país deixou de ser rural, entregou a rapadura para a indústria, virou uma coisa que não está muito clara ainda, mas que tornou incompreensível para os meninos expressões como “o bom cabrito não berra”, “a vaca foi pro brejo”.

Esta crônica vem lá de caixa-pregos, uma cidade perdida na memória, bem para lá da Casa do Pafúncio, e é uma crônica-encafifadas dedicada também ao jornalista Alberto Villas, por ter percebido no livro “Admirável mundo velho!”, recém lançado pela editora Globo, que tudo isso já acabou. Um garoto acoplado à máquina de calcular do iPhone não vai entender a observação materna sobre a necessidade de se decorar a tabuada. Mesmo que não apareça um rapaz para dançar com ela, a menina não será mais submetida ao chá de cadeira pelo simples motivo de que ninguém fica mais sentado nos bailes.

Foi-se um mundo velho com porteiras, com cadeiras nas calçadas, conversas para boi dormir, folha de papel almaço com decalque no cabeçalho, e com ele as palavras que o explicavam. Ponham-se todas à Cônsul. Saudades, queridas patuscas, Madalena arrependida, Maria batalhão e aquela outra de mocotó farto por quem eu suspirava silencioso um empolgado “Que violão!”. Por todas chorarei pitangas, farei das tripas coração e, numa tentativa radical de reencontrá-las um dia, chamarei se preciso for a radiopatrulha.

Pedirei ao Vigilante Carlos, ao Cosme e Damião, que localizem no cérebro eletrônico da delegacia essa multidão que se foi. Será que apenas foram à casinha e já voltam¿ A jambete, o deputado baiano, o televizinho, a roxinha, o jiló, o geraldino, o boquirroto, o sujeito que deu origem ao “até aí morreu Neves”, o janota, o mentecapto e a boazuda de fechar o comércio. Todos idos. Dependuraram as chuteiras.

Ninguém conhece mais a Santinha de pau oco, e é natural que assim seja. Não há mais nenhuma virtude em esconder, como na origem da expressão, o contrabando maligno por dentro do envólucro de santidade. As moças são todas orgulhosamente da pesada ou, como se dizia no país do leite derramado, da pá virada. Elas acordam com a macaca, põem os homens em sinuca de bico, fazem das tripas coração – só que não ligam mais o nome às pessoas.

Esta crônica do tipo abotoou-o-paletó é dedicada a todos esses fantasmas cheios de dor na espinha, emplastros Sabiá na alma, anjos de procissão lembrados no título do Chico, no livro do Villas, no bambolê dos shows da Silvia Machete e nos LPs que uma gravadora acabou de lançar, certa de que som bom era o que saía daqueles sulcos, certa de que desse mato ainda sai cachorro. Benzadeus! Pode soar estranho num tempo em que o moderno é dar o plá só com os 140 toques do twitter, mas as pessoas tinham menos pulgas atrás da orelha. Eram sem papas na língua. Escreviam crônicas, do tipo eu cá com meus botões, em 4987 caracteres com espaço. Falavam como se tivessem engolido uma agulha de vitrola com todos os discos do Chico dentro.

Joaquim Ferreira dos Santos é Jornalista.

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Comentários do Usuário

  1. eHelp Carolina | junho 30th, 2009

    Novo artigo: Twist ou Twitter http://bit.ly/3ztChz

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