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Felicidade Realista

Publicado por Tulio em 21 março, 2010.

Felicidade Realista

 

 
A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos.
 
Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis.
 
Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema:
queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas.
 
E quanto ao amor? Ah, o amor… não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito.
 
É o que dá ver tanta televisão.
Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista.
 
Ter um parceiro constante, pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum.
 
Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio.
Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade.
 
Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável.Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar.É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz mas sem exigir-se desumanamente.A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio.
Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se.
 
Invente seu próprio jogo.
Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração.
 
Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade.
 
Martha Medeiros, escritora e jornalista gaúcha

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Cinema 3-D: Desconforto visual, Dor nos olhos e Dor de cabeça

Publicado por Tulio em 19 março, 2010.

 

 

Globopress

Diversão para alguns, desconforto para outros. Você se sente bem depois de uma sessão de 2h30 de cinema 3-D?

 

Dor de cabeça, tontura, náusea, dor nos olhos, na testa, desconforto visual, ardência nos olhos e sensação de cansaço. Parecem até sintomas de dengue ou de alguma virose, mas não são. E eles podem evoluir para crises de epilepsia ou labirintite, dependendo do caso. Quem diria que assistir a um filme num cinema 3-D poderia ser tão prejudicial… Mas apenas a quem tem alguma pré-disposição, como ser epiléptico, ter labirintite, sofrer de enxaqueca ou ter insuficiência de convergência (nome dado à movimentação dos olhos para unificar a visão dos dois olhos). Se você for estrábico ou tiver visão alternante (quando a leitura, feita pelo cérebro, da visão de um olho é melhor que do outro) não terá sintomas, mas também não conseguirá aproveitar o melhor do 3-D: quando as imagens parecem saltar da tela. Para esta que vos fala, a experiência no Imax foi catastrófica, o que motivou esta reportagem.

“Para ter boa percepção do filme 3-D é necessário boa acuidade visual em ambos os olhos, isto é, que o cérebro não se interesse pelas imagens só de um dos olhos, e que haja convergência, ou seja, fusão dessas imagens no cérebro”, afirma o oftalmologista Osvaldo Travassos, da Sociedade Brasileira de Oftalmologia e professor titular da Universidade Federal da Paraíba. Numa sessão em 3-D, duas imagens são exibidas na tela: é como se uma fosse a do olho esquerdo e, a outra, do direito. Sem os óculos, elas ficam sobrepostas, embaçadas. Os óculos fazerem o trabalho dos olhos de convergir as imagens, ou seja, de unificá-las, tornado-as nítidas. Quando o filme lança mão do recurso de três dimensões, exige que os olhos, agora eles, façam tal movimento de convergência (confira no infográfico abaixo). É nos momentos em que o longa mais exige esse exercício que o cinema 3-D se torna mais emocionante – ou, para alguns, vertiginoso., irrigando mais os vasos e deixando a região vermelha.  

 Sintomas:
• dores de cabeça 
• náuseas 
• tontura 
• dores na testa
• dores no globo ocular
• dores na nuca
• ardência nos olhos
• cansaço

Casos mais graves são os de epilepsia e labirintite. Os mesmos avisos que são dados em simuladores 3-D nos parques deveriam ser obrigatórios para o cinema. “A sensação de movimento pode causar crises de labirintite. E existe um tipo de epilepsia desencadeada pela luz, chamada foto-sensível, que deve manter o epiléptico longe do cinema”, afirma o neurologista. Não existem contra-indicações muito rígidas quanto ao cinema 3-D, mas esses dois casos devem ser levados em conta principalmente para quem deseja experimentar as salas Imax – por enquanto só há duas no Brasil, em São Paulo e Curitiba.

“Cabe à produção dos filmes em 3-D não explorar muito os efeitos que levam a estímulos de convergência, bem como a desfocalização de planos que representam imagens à distância, luzes intermitentes, estroboscópicas e imagens que passem muito rápido na frente do espectador”, afirma Travassos, sugerindo à indústria cinematográfica mais parcimônia ao usar todas os recursos do 3-D.evita que os efeitos sejam sentidos – com exceção para quem usa lentes de correção. 
 
 Alerta:
Epilépticos: existe um efeito chamado nistágmo optocinético que é quando um objeto passa em alta velocidade na frente dos olhos e, sem querer, nossos olhos acompanham o movimento. O filme 3-D explora muito isso com as imagens explodindo e correndo de um lado para o outro. Isso pode causar enjoo e, em maior volume, desencadear a epilepsia. É a mesma causa apresentada por cientistas para explicar a ligação de alguns desenhos animados e videogames com a epilepsia infantil, junto a luzes estroboscópicas.

 
Labirintite: a sensação de estar no meio da ação do filme, ou em movimento, pode causar crises da doença.
 
Enxaqueca: luzes piscantes e muito movimento levam a dores de cabeça intensas e enjoo, principalmente para quem já tem histórico de enxaqueca.

Qualquer problema na visão: se a pessoa não tiver boa visão em um dos olhos, ou nos dois, não poderá assistir ao 3-D, cuja tecnologia depende do uso simultâneo (e, portanto, da boa saúde) dos dois olhos. Se a pessoa enxergar só com um deles, ou for estrábica, também não deve ir ao cinema.

Pessoas que usam lentes de contato ou óculos devem usá-los durante a sessão de cinema, sob os óculos 3-D

Se Avatar foi uma revolução no modo de assistir cinema, só atingirá uma parte da população. A outra ainda deverá se acostumar para sentir prazer ao ver os personagens pulando sobre seus colos nos cinemas. Ou, pior: qualquer problema na visão

 

 ”O paciente muito sensível ao movimento e à luz excessiva e com cinetose (aquele que normalmente sente náuseas em viagens de ônibus), pode ter uma crise de enxaqueca no cinema“, diz Elder Machado Sarmento, reponsável pelo departamento de Cefaléia da Academia Brasileira de Neurologia. Ele mesmo, ao assistir Avatar em uma exibição 3-D teve náusesas. É a mesma sensação de quem sente enjoo nos brinquedos de alta velocidade em um parque de diversões. “Você tem a sensação de estar em movimento”, afirma.

 Se os músculos reto-mediais, responsáveis por esse movimento dos olhos chamado convergência, não estiverem em plena forma, é possível que o espectador saia com dor de cabeça do cinema, principalmente do Imax, onde a tela é muito maior, bem como a imersão na cena. Esse descompasso se chama desequilíbrio no balanceamento ocular, o que não é nenhuma doença grave e pouco interfere na visão do dia a dia, mas pode complicar as visitas aos cinemas. Quem tem esse pequeno problema corre o risco de sair com os olhos vermelhos da sessão: quando um músculo é muito solicitado, ele demanda mais sangue.
Segundo Travassos, outro fator que pode causar sintomas são as cenas que exigem convergência para perto com a focalização dos olhos para longe. “No mundo real, somos acostumados a focalizar um objeto de perto ao mesmo tempo em que os olhos convergem à distancia focalizada. No 3-D há uma dissociação entre acomodação (foco) e convergência”, explica o médico. Isso quer dizer que quando focamos uma caneta a uma distância de 40 centímetros, também convergimos nossos olhos para ela. No caso do filme, a mesma cena que salta aos olhos contém imagens desfocadas no segundo plano, as quais nossos olhos tentam focalizar. Esse exercício frequente e descompassado entre focar e convergir pode sobrecarregar a vista, e doer.
 
 Fonte: Época

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“Estamos informados de tudo, mas não sabemos de nada”

Publicado por Tulio em 7 outubro, 2009.

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No século XVI, alguns teólogos da igreja católica legitimavam a conquista da América em nome do direito da comunicação. Jus communicationis: os conquistadores falavam, os índios escutavam. A guerra era inevitável justamente quando os índios se faziam de surdos. Seu direito de comunicação consistia no direito de obedecer. No fim do século XX, aquela violação da América ainda se chama encontro de culturas, enquanto continua se chamando comunicação o monólogo do poder.

Ao redor da Terra gira um anel de satélites cheios de milhões e milhões de palavras e imagens, que da terra vêm e à terra voltam. Prodigiosas engenhocas do tamanho de uma unha recebem, processam e emitem, na velocidade da luz, mensagens que há meio século exigiriam trinta toneladas de maquinaria. Milagres da tecnociência nestes tecnotempos: os mais afortunados membros da sociedade midiática podem desfrutar suas férias atendendo o telefone celular, recebendo e-mail, respondendo ao bipe, lendo faxes, transferindo as chamadas do receptor automático, fazendo compras por computador e preenchendo o ócio com os videogames e a televisão portátil.

Vôo e vertigem da tecnologia da comunicação, que parece bruxaria: à meia-noite, um computador beija a testa de Bill Gates, que de manhã desperta transformado no homem mais rico do mundo. Já está no mercado o primeiro microfone incorporado ao computador, para que se converse com ele. No ciberespaço, Cidade celestial, celebra-se o matrimônio do computador com o telefone e a televisão, convidando-se a humanidade para o batismo de seus filhos assombrosos.

A cibercomunidade nascente encontra refúgio na realidade virtual, enquanto as cidades se transformam em imensos desertos cheios de gente, onde cada qual vela por seu santo e está metido em sua própria bolha. Há quarenta anos, segundo as pesquisas, seis de cada dez norteamericanos confiavam na maioria das pessoas. Hoje a confiança murchou: só quatro de cada dez confiam nos demais. Este modelo de desenvolvimento desenvolve a desvinculação. Quanto mais se sataniza a relação com as pessoas, que podem te pegar a Aids, te tirar o emprego ou te depenar a casa, mais se sacraliza a relação com as máquinas. A indústria da comunicação, a mais dinâmica da economia mundial, vende as abracadabras que dão acesso à Nova Era da história da humanidade. Mas este mundo comunicadíssimo está se parecendo demais com um reino de sozinhos e de mudos.

Os meios dominantes de comunicação estão em poucas mãos, que são cada vez menos mãos e em regra atuam a serviço de um sistema que reduz as relações humanas ao mútuo uso e ao mútuo medo. Nos últimos tempos, a galáxia Internet abriu imprevistas e valiosas oportunidades de expressão alternativa. Pela Internet estão irradiando suas mensagens numerosas vozes que não são ecos do poder. Mas o acesso a essa nova autopista da informação é ainda um privilégio dos países desenvolvidos, onde reside noventa e cinco por cento dos usuários. E já a publicidade comercial está tentando transformar a Internet em Businessnet: esse novo espaço para a liberdade de comunicação é também um novo espaço para a liberdade de comércio. No planeta virtual não se corre o risco de encontrar alfândegas, nem governos com delírios de independência. Em meados de 1997, quando o espaço comercial da rede já superava com sobras o espaço educativo, o presidente dos EUA recomendou que todos os países do mundo mantivessem livres de impostos a venda de bens e serviços através da Internet, e desde então este é um dos assuntos que mais preocupam os representantes norteamericanos nos organismos internacionais.

O controle do ciberespaço depende das linhas telefônicas e nada é mais casual quer a onda de privatizações dos últimos anos, no mundo inteiro, tenha arrancado os telefones das mãos públicas para entregá-los aos grandes conglomerados da comunicação. Os investimentos norteamericanos em telefonia estrangeira se multiplicam muito mais do que os demais investimentos, enquanto avança a galope a concentração de capitais: até meados de 1998, oito mega-empresas dominavam o negócio telefônico nos EUA, e numa só semana se reduziram a cinco.

A televisão aberta e por cabo, a indústria cinematográfica, a imprensa de tiragem massiva, as grandes editoras de livros e de discos e as emissoras de rádio de maior alcance também avançam, com botas de sete léguas, para o monopólio. Os mass media de difusão universal puseram nas nuvens o preço da liberdade de expressão: cada vez são mais numerosos os opinados, os que têm o direito de ouvir, e cada vez são menos numerosos os opinadores, os que têm o direito de se fazer ouvir. Nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial, ainda tinham ampla ressonância os meios independentes de informação e opinião e as aventuras criadoras que revelavam e alimentavam a diversidade cultural. Em1980, a absorção de muitas empresas médias e pequenas já deixara maior parte do mercado planetário na posse de cinqüenta empresas. Desde então a independência e a diversidade se tornaram mais raras do que cachorro verde.

Segundo o produtor Jerry Isenberg, o extermínio da criação independente na televisão norteamericana foi fulminante nos últimos vinte anos: as empresas independentes proporcionavam entre trinta e cinqüenta por cento do que se via na telinha e agora chegam a apenas dez por cento.

Também são reveladores os números da publicidade no mundo: atualmente, metade de todo o dinheiro que o planeta gasta em publicidade vai parar no bolso de apenas dez conglomerados, que açambarcaram produção e a distribuição de tudo o que se relaciona com imagem, palavra e música.

Nos últimos cinco anos, duplicaram seu mercado internacional as principais empresas norteamericanas de comunicação: General Electric, Disney/ABC, Time Warner/CNN, Viacom, Tele-Communications INC. (TCI) e a recém chegada Microsoft, a empresa de Bil Gates, que reina no mercado equivalente e televisual. Estes gigantes exercem um poder oligopólico, que em escala planetária é compartilhado pelo império Murdoch, pela empresa japonesa Sony, pela alemã Berteslmann e uma que outra mais. Juntas, teceram uma teia universal. Seus interesses se entrecruzam, atadas que estão por numerosos fios. Ainda que esses mastodontes da comunicação simulem competir e às vezes até se enfrentam e se insultem para satisfazer a platéia, na hora da verdade o espetáculo cessa e, tranquilamente, eles repartem o planeta.

Por obra e graça da boa sorte cibernética, Bill Gates amealhou uma rápida fortuna equivalente a todo o orçamento anual do estado argentino. Em meados de 1998, o governo dos EUA entrou com uma ação contra a Microsoft, acusada de impor seus produtos através de métodos monopolistas que esmagavam seus competidos. Tempos antes, o governo federal entrara com um processo similar contra a IBM: ao cabo de treze anos de marchas e contramarchas, o assunto deu em nada. Pouco podem as leis jurídicas contra as leis econômicas: a economia capitalista gera concentração de poder como o inverno gera o frio. Não é provável que as leis anti-trust, que outrora ameaçavam os reis do petróleo, possa pôr em perigo a trama planetária que está tornando possível o mais perigoso dos despotismos: o que atua sobre o coração e a consciência da humanidade inteira.

A diversidade tecnológica quer significar diversidade democrática. A tecnologia põe a imagem, a palavra e a música ao alcance de todos, como nunca antes ocorrera na história humana, mas essa maravilha pode se transformar num logro para incautos se o monopólio privado acabar impondo a ditadura da imagem única, da palavra única e da música única. Ressalvadas as exceções, que afortunadamente existem e não são poucas, essa pluralidade tende, em regra, a nos oferecer milhares de possibilidades de escolher entre o mesmo e o mesmo. Como diz o jornalista argentino Ezequiel Fernández-Moore, a propósito da informação: “Estamos informados de tudo, mas não sabemos de nada”.

Eduardo Galeano


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