
Mapa localiza Praga, capital da República Tcheca
Dois brasileiros que vivem há cerca de quatro anos na capital da Republica Tcheca encontraram um jeito de “levar o país natal na bagagem” e pagar as contas com isso.
A percursionista Flávia Torga chegou a Praga em 2006 com destino certo. A convite de amigos brasileiros que já estavam na cidade, foi fazer parte de uma banda. Com o tempo, ela e outros dez conterrâneos formaram um novo grupo. Eles poderiam tocar jazz, ritmo familiar para os tchecos, mas optaram por divulgar a cultura brasileira.
A percussionista brasileira Flávia Torga, com a Batukatum. (Foto: Divulgação/Batukatum)
O Batukatum leva ao leste europeu samba e maracatu, ritmos tipicamente brasileiros. Não só o batuque resgata as origens destes brasileiros morando na Europa. As letras das músicas também lembram do país com carinho. “A gente reclama muito do Brasil, mas, agora que estou há alguns anos fora, percebo quantas oportunidades tem no país, e as pessoas simplesmente não as vêem”, disse Flávia.
“Coração de brasileiro bate na sola do pé. Cheguei no velho mundo agora, meu amor. Aprendi o que é o apreço, saudade que me dominou. Mas uma idéia genial chegou para acalmar meu coração. Saí de lá sendo mais um e vim bater batukatum”, diz a letra de “Axé Batukatum”, uma das músicas do grupo.
Além de participar do Batukatum, a brasileira dá aulas de percussão em empresas em Praga. “É uma forma de relaxar depois do trabalho. Dou aula para tchecos e outros europeus que trabalham nessas empresas. Muitos me agradecem depois da aula porque dizem que a batucada faz com que eles se sintam aliviados”, conta.
Ela voltou ao Brasil pela primeira vez depois de dois anos na capital tcheca. “Agora volto com mais freqüência. Em 2009, fui duas vezes ao Brasil”, afirma. “A gente sente muita falta de casa. Sou do Rio de Janeiro, para mim, o frio é um problema. Também tenho saudades da comida, principalmente do acarajé.”
Capoeira
No final de 2005, Vanilson Alessandro de Abreu, o Mestre Sazuki, saiu do Brasil e passou seis meses na Irlanda. Também a convite, o goiano foi ensinar capoeira no Reino Unido. Depois de uma rápida passagem pela França, chegou à República Tcheca, e atualmente tem cerca de 50 alunos locais.
“Muitos levam jeito, embora seja uma coisa totalmente nova para eles. Alguns até tinham alguma noção da capoeira por terem viajado para outros lugares”, contou Sazuki.
Às terças e quintas, um grupo de aproximadamente 15 jovens tchecos se encontra na estação Vltavská, na zona norte da capital tcheca, para praticar. Filip Pencev é um deles. Filho de mãe eslovaca e pai tcheco, o engenheiro sai do trabalho, na zona sudoeste da cidade, direto para as aulas de capoeira. “Fiz kicking boxe por muito tempo e procurava alguma outra arte marcial. Na capoeira encontrei muito mais que isso”, diz.
Para Jana Holečková, a vida ficou muito mais colorida depois que ela entrou para a capoeira. “Já tenho muito estresse no meu dia a dia com trabalho, universidade… não abro mão da capoeira, ela me deu amigos e disposição. Não seria a mesma coisa sem ela”, confessa.
O grupo Caieras também faz apresentações pela cidade e é chamado para participar de alguns eventos. “Conhecemos a Flávia em um Carnaval que teve em Praga, organizado pelo Centro da Língua Portuguesa da cidade. Nos apresentamos juntos. A recepção do público tcheco é boa”, conta Sazuki.
De acordo com o professor, muitos dos alunos chegam às aulas de capoeira apenas pela dança, mas acabam se interessando pela cultura brasileira, e alguns até aprendem a falar português e acabam visitando o Brasil.
“São poucos os alunos que chegam a nossa escola já sabendo alguma coisa sobre o nosso país. Lembro de uma só, que hoje é minha noiva”, disse o professor.
Além das oportunidades de trabalho na República Tcheca e da boa aceitação da população ao trabalho dos brasileiros, outra vantagem do país é a moeda. “Não é euro na República Tcheca. Os valores são bem próximos quando comparados com o real”, diz Flávia.
Roda de capoeira para ‘descontrair’ no final da aula. (Foto: Mayra Lopes/Especial para o G1)
Tanto Flávia quando Sazuki têm planos de voltar para o Brasil. “Fico aqui enquanto tiver oportunidades de trabalho, mas quero voltar para meu país em pelos menos dois anos definitivamente. Estou tendo ótimas experiências aqui, mas quero muito voltar”, revelou Flávia.
Sazuki, que tem planos para casar com uma tcheca em julho de 2010, diz que o casal já cogita a possibilidade de viver no Brasil. “Não sei se a Capoeira vai fazer sucesso aqui para sempre. Se sentir que não tenho mais mercado, volto para o Brasil. Minha noiva já fala um pouco de português e está considerando algumas opções de trabalho em Goiânia”, contou o professor de capoeira.
A comunidade de brasileiros na República Tcheca é pequena se comparada com a de outros países da União Europeia. Segundo Samuel Bueno, chefe do setor consular da Embaixada do Brasil em Praga, são cerca de 200 brasileiros vivendo no país. “Antes de vir para cá, estava na Embaixada de Zurique. Lá são mais de 45 mil brasileiros”, afirma Bueno.
O diplomata, no entanto, acredita que existam mais brasileiros que têm Praga como residência fixa. “Como o cidadão do Brasil não precisa passar pela Embaixada para ser legal na República Tcheca, não são todos que se registram conosco”, explica.
Fonte G1
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