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A inversão dos valores

Publicado por Tulio em 12 abril, 2010.

11MAR A inversão dos valores

Um dia eu acordei e tinha mudado tudo. Uma inversão de valores. Tive que me adaptar. Aprender uma porção de coisas na marra. Com a experiência. Experiência besta essa de aprender tudo o que não devia. Estudei no Sion, debalde. Me aborreci à toa com aquelas freiras ensinando francês, boas maneiras… Fiquei sabendo, por exemplo, que hoje em dia não se retorna mais ligação. É chique. Dá status. O importante é ser inatingível, grosseiro. Bons tempos aqueles em que eu falava com Fellini, em pessoa, na Cinecittà, sem intermediários, e passeava com ele pelos estúdios.
- Aqui, minha filha, é o restaurante – mostrava-me ele, o braço por cima dos meus ombros – ali os camarins…

Uma vez liguei também pro George Benson, em Los Angeles, pra mostrar-lhe uma fita da Adriana Calcanhotto, e ele retornou a ligação, interessado! Minha irmã me diz: – Pára de contar essas coisas que vão achar que você é a princesa Anastácia, que acabou no hospício, feito louca.

Mas tinha uma delicadeza… Ontem vi Nara Leão na TV Cultura, linda, cantando Com açúcar, com afeto. Hoje não tem mais açúcar, ele foi substituído pelo dietil e afeto, então, ah! Corre-se dele como o diabo da cruz. Também ninguém mais canta com aquela delicadeza que fazia até carcará ficar sutil.

Secretária eletrônica só serve mesmo pra pessoa se esconder, ficar quietinha, ouvindo o palhaço deixar o recado. ”Tá pensando que eu vou responder, ah! coitado!…” Celular é pra ficar fora de área. Tem coisa mais brega que celular funcionando? Antigamente, não. Gente bem educada tinha não só que dar o retorno assim que chegasse em casa e a empregada (nervosa com a possibilidade de errar e perder o emprego) contasse quem ligou. Como também tinha que telefonar para agradecer a festa ou a reunião que tivesse ido na véspera. Pros homens, valia também ligar pra moça no dia seguinte de uma transa, mesmo que fosse só pra fazer uma gracinha qualquer ou dizer: – Oi, tô aqui .

Agora, não. Ninguém mais tá aí pra nada. Isso dos homens ligarem no dia seguinte então, acabou faz tempo. Foi substituído primeiro por um ”a gente se vê” muito vago, com um beijinho nos lábios, depois de uma suposta noite de paixão, quando se ia levar o cara na porta. Depois, virou um beijinho na testa, já com o pé no elevador, sem texto nenhum. E mais tarde, um gesto que queria dizer tchau de longe, sem beijinho nem texto pra deixar bem claro que não tem gancho pra próximo capítulo, muito menos pra novela. Também não há possibilidade de virar filme porque não monta. Não tem edição. Falta roteiro, seqüência, diálogo. É, no máximo, um clipe rápido, uma cena que você grava na cabeça e fica voltando, se quiser. Vive-se um trailer do que poderia ter sido. Um flash, uma hipótese.

Outro dia uma amiga jovem concordou em ir pro apartamento do cara contanto que ele ligasse no dia seguinte. Combinaram assim. No dia seguinte ele ligou, como prometera, e quando ela perguntou: – E aí, quando é que a gente se vê de novo?

Ele respondeu: – Ah, assim também é demais. Isso eu não prometi pra você…

Mas não houve só uma mudança negativa. De positivo há a vantagem de que hoje em dia mulher pode ligar pra homem, por exemplo, coisa inadmissível naquela época longínqua do Sion, quando mulher tinha que ser inatingível, cobiçada de longe, de preferência passando de helicóptero, dando adeus. Isso quando o auge da transgressão no colégio era matar aula na Sears ou no Jardim Botânico e não matar o colega de carteira na sala de aula ou a professora no recreio com uma rajada de metralhadora.

Mas, cá entre nós, se mal lhe pergunte, o que é que adiantou mulher poder ligar pra homem se ninguém responde às ligações? Conclui-se então que telefone, celular, bip, secretária eletrônica, e-mail, servem pra gente se proteger do outro e não pra se comunicar. Ninguém mais quer se comunicar com ninguém nessa era da comunicação. O outro é uma ameaça constante. O que sempre foi, aliás. A diferença é que vivíamos sonhando com ela. Agora, não. Quando perguntei à filha de um amigo por que ela não ficava de novo com o garoto da festa, se tinha sido tão bom, ela respondeu, categórica: – Repeteco não preenche álbum de figurinha…

Transam-se todas as possibilidades de sexo, droga, rock and roll, mas o afeto continua encerrado no peito há tanto tempo que até perdeu-se a chave, substituída por um controle remoto. – E se Obama invadir o Iran, a Coréia acabar com os Estados Unidos, um asteróide se chocar com a Terra? – perguntei a um amigo, por fax.
- A gente toma um lexotan e espera bater – respondeu ele, por e-mail, uma semana depois.

Fonte : Maria Lucia Dahl, no JB

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” O TEMPO PASSOU E ME FORMEI EM SOLIDÃO”

Publicado por Tulio em 26 fevereiro, 2010.

2203045242 4d7e33bd23   O TEMPO PASSOU E ME FORMEI EM SOLIDÃO

Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.
   Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.
  – Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.
    E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.
  – Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!
    A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro… casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.
    Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:
    – Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.
    Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite… tudo sobre a mesa.
    Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança…. Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam…. era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade…
    Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa.. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, t ambém ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos… até que sumissem no horizonte da noite.
    O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail… Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:
    – Vamos marcar uma saída!… – ninguém quer entrar mais.
    Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.
    Casas trancadas.. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite…
    Que saudade do compadre e da comadre!

  
José Antônio Oliveira de Resende
 Professor da Universidade Federal de São João del-Rei.

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Da minha precoce nostalgia

Publicado por Tulio em 12 janeiro, 2010.

 

 

 

calice de vinho1 Da minha precoce nostalgia

Quando eu for bem velhinha, espero receber a graça de, num dia de domingo, me sentar na poltrona da biblioteca e, bebendo um cálice de  Porto, dizer a minha neta:
- Querida, venha cá. Feche a porta com cuidado e sente-se aqui ao meu lado. Tenho umas coisas pra te contar.
E assim, dizer apontando o indicador para o alto:
- O nome disso não é conselho, isso se chama corroboração!
Eu vivi, ensinei, aprendi, caí, levantei e cheguei a algumas  conclusões. E agora, do alto dos meus 82 anos, com os ossos frágeis a pele mole e os cabelos brancos, minha alma é o que me resta saudável e forte.
Por isso, vou colocar mais ou menos assim:
É preciso coragem para ser feliz. Seja valente.
Siga sempre seu coração. Para onde ele for, seu sangue, suas veias e  seus olhos também irão.
E satisfaça seus desejos. Esse é seu direito e obrigação.
Entenda que o tempo é um paciente professor que irá te fazer crescer, mas escolha entre ser uma grande menina ou uma menina grande, vai  depender só de você.
Tenha poucos e bons amigos. Tenha filhos. Tenha um jardim. Aproveite sua casa, mas vá a Fernando de Noronha, a Barcelona e a Austrália.
Cuide bem dos seus dentes.
Experimente, mude, corte os cabelos. Ame. Ame pra valer, mesmo que ele seja o carteiro.
Não corra o risco de envelhecer dizendo “ah, se eu tivesse feito…”
Tenha uma vida rica de vida.
Vai que o carteiro ganha na loteria – tudo é possível, e o futuro é imprevisível.
Viva romances de cinema, contos de fada e casos de novela.
Faça sexo, mas não sinta vergonha de preferir fazer amor.
E tome conta sempre da sua reputação, ela é um bem inestimável. Porque, sim, as pessoas comentam, reparam, e se você der chance elas inventam também detalhes desnecessários.
Se for se casar, faça por amor. Não faça por segurança, carinho ou status.
A sabedoria convencional recomenda que você se case com alguém  parecido com você, mas isso pode ser um saco!
Prefira a recomendação da natureza, que, com a justificativa de  aperfeiçoar os genes na reprodução, sugere que você procure alguém
diferente de você. Mas para ter sucesso nessa questão, acredite no  olfato e desconfie da visão. É o seu nariz quem diz a verdade quando o assunto é paixão.
Faça do fogão, do pente, da caneta, do papel e do armário, seus  instrumentos de criação. Leia.
Pinte, desenhe, escreva. E por favor, dance, dance, dance até o fim,  se não por você, o faça por mim.
Compreenda seus pais. Eles te amam para além da sua imaginação, sempre fizeram o melhor que puderam, e sempre farão.
Cultive os amigos. Eles são a natureza ao nosso favor e uma das formas mais raras de amor.
Não cultive as mágoas – porque se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida é que um único pontinho preto num oceano branco deixa tudo cinza.
Era só isso minha querida. Agora é a sua vez. Por favor, encha mais uma vez minha taça e me conte: como vai você?

Maria Sanz Martins

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Herbert Vianna diz que música substitui vida sexual

Publicado por Tulio em 1 julho, 2009.

Divulgação  /.Divulgação

Herbert Vianna: vida transformada, mas tranquila com os filhos

Em uma entrevista reveladora à colunista Mônica Bergamo, do jornal Folha de São Paulo, deste domingo, 14, o líder do Paralamas do Sucesso, Herbert Vianna contou um pouco da vida que leva na banda e ao lado dos filhos desde que ficou paraplégico, há oito anos, em um acidente de ultraleve que matou também sua mulher.

Durante passagem pela capital paulista, onde apresentou a turnê “Brasil Afora”, Herbert contou que sempre reza com os filhos antes de dormir e que são eles que ajudam a cuidar cantor.“Antes de dormir, damos as mãos e rezamos. É muito natural e luminoso o carinho e o entusiasmo dos meus filhos. Eles lidam bem melhor do que eu com a perda da Lucy”, contou sobre Luca, 16, Hope, 12 e Phoebe, de 9 anos.O cantor falou também sobre relacionamentos e contou que os namoros que teve aconteceram em um estágio em que ainda não era ele mesmo. Estava tonto, confuso e bastante carente.“Eu dava um beijo, fazia alguma coisa. Mas não aconteceu de eu sentir alegria romântica”, diz.”Além disso, tem a questão da condição física, porque eu não tenho sensibilidade, ereção”, disse ele que afirmou ainda que sexo não lhe faz falta.

 

 

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