
O telefone não chega a tocar duas vezes. A dona da casa atende com voz suave, de aeroporto. Eu me apresento e pergunto se está tudo bem.
- Graças-a-Deus-amém – ela responde.
- Liguei em boa hora?
- Claro, querida. Cheguei do mercado, comprei umas coisinhas, e agora estava dando uma arrumada na casa, limpando o pó dos móveis.
Não era, realmente, o começo de diálogo que eu esperava com Rita Cadillac, a ex-chacrete mais famosa e dona de um dos bumbuns mais desejados do Brasil. Aos 55 anos e ainda na ativa, ela ganhou um documentário: Rita Cadillac – a Lady do Povo, que estreia no dia 9 de abril. Vi o filme, do diretor Toni Venturi, e me supreendi com uma vida que daria mais do que um documentário. Daria uma novela. Mexicana, naturalmente.
Com poucos meses, a carioca Rita de Cássia Coutinho foi abandonada pela mãe com a avó. Nunca mais a viu. Cresceu num colégio interno – de freiras – no Rio de Janeiro.
- Desde cedo eu percebi o sucesso que meu corpo fazia. Mas não pensava em sexo. As freiras me dominavam. A escola era o meu Carandiru – ela me diz, fazendo referência ao presídio onde tantas vezes ela se apresentou, eroticamente, seminua, para centenas de presos. Rita também fez show em Serra Pelada, no auge do garimpo. Garante que, supreendentemente, sempre foi “respeitada” nesses lugares.
- Os homens, ao mesmo tempo que me desejavam, também tinham instintos protetores em relação a mim – afirma.
Um belo paradoxo.
Aos 16 anos, Rita teve sua primeira paixão. Por ciúmes, o namoro terminou. Quando soube que ele estava com outra, ela não deixou por menos. Engraçou-se com um vendedor de loja da rua onde morava, 14 anos mais velho. Marcou casamento, mas, na data da cerimônia, já vestida de noiva, procurou o antigo namorado. Disse que por ele largaria tudo. Ele não quis. Então se casou.
- Mas levei uma semana pra dar. Eu não queria. Mas ele me embebedou e conseguiu. Engravidei logo na primeira.
Ainda grávida, Rita decobriu uma traição do marido. Quis abandoná-lo, mas a avó não deixou. Era um outro tempo. Mulheres deveriam ser fiéis ao marido. Já o contrário, nem tanto. Quando sua avó morreu, ela acabou com o casamento. Sozinha com o filho, sem formação e sem dinheiro, acabou se prostituindo. Mas não chegou a um ano, ela afirma, pois uma amiga o apresentou a Haroldo Costa, produtor de musicais, e Rita passou num teste para dançarina. O showbizz se abria pra ela. Mas nem tudo eram flores: nesta época, ela perdeu a guarda do filho para o ex-marido…

Já se convenceram da novela mexicana? Então paro o relato por aqui. Vejam o filme de Venturi – que, além de tudo, tem ótimos depoimentos e uma fotografia linda – e acompanhem essa história. Uma história que ainda não acabou. E acompanhem meu papo com a lady do povo, que hoje mora apenas com seus dois cachorros numa casa em Praia Grande, no litoral sul de São Paulo.
Mulher 7×7 – Que trabalhos você ainda faz hoje?
Rita Cadillac – Faço meus shows em qualquer lugar. Se quiserem, até em cemitério.
Como é o show?
Eu danço, é claro. Canto, principalmente músicas da minha xará Rita Lee, que adoro, converso com as pessoas, conto histórias…Eu acho que todo mundo se diverte muito. E eu também. Adoro gente. O que eu mais faço hoje é festa de firma.
E filme pornô, você faria de novo?
Não considero que eu tenha feito um filme. Fiz vinte cenas e o pessoal da Brasileirinhas aproveitou do jeito que achou melhor. Ganhei um bom dinheiro por esse trabalho, não sem antes conversar muito com o meu filho. Pude comprar uma casa pra mim e outra pra ele.
Você gosta de filme pornô?
Detesto. Nunca gostei. Não me excita, eu acho ridícula aquele gemeção toda. É muito arrificial. Sexo não é daquele jeito…Dá até vontade de rir.
Você sofre preconceito?
Hoje acho que não. As pessoas me entendem. Mas no passado, sim. Quando eu entrei no Chacrinha, eu criei essa personagem, a Rita Cadillac, apelido que me deram. Eu era a mais gostosa, a mais bunduda, poderosa, sedutora. Mas a Rita de Cássia nunca foi nada disso. Eu sou caseira, meio quieta, sempre fui. Mas a imagem era a de uma mulher que poderia a qualquer momento pegar todos os homens do mundo. Então havia preconceito. Mas era só alguém me conhecer melhor que acabava!
Você esperava um dia ganhar um documentário?
Nunca! Imagina, nêga! Quem sou eu…Ainda mais estando viva pra ver. Quase todo mundo ganha filme depois de morto, né? É um sonho.
E que sonhos você tinha quando era jovem?
Eu só queria mesmo dançar. Eu era fã da Betty Faria e da Sandra Brea, que dançavam e cantavam. E a coisa foi tomando um rumo sem eu mesma me dar conta. Quando vi, já tinha acontecido. Destino. Eu digo que meu destino é o meu príncipe encantado. Foi ele que me levou a algum lugar.
Junto com o seu bumbum, né?
Claro!! Eu agradeço a Deus pelo meu bumbum todo os dias. Se não fosse ele você nem estaria me telefonando hoje, né? Não tenho vergonha de assumir que chamei atenção por causa do meu corpo. Por isso a minha frase que ficou famosa: quando eu morrer, quero ser enterrada de bruços pro povo me reconhecer.
Como é o seu dia-a-dia?
Muito mais tranquilo do que se pode imaginar. Eu arrumo a casa, lavo roupa, passeio com os cachorros. Às vezes estou com meu filho e com minhas netas, uma de 14 anos e outra de 3 meses. De vez em quando me dá uma louca e eu, sozinha em casa, viro Rita Cadillac. Me arrumo, coloco uma roupa sensual. Mas é raro. Só nos shows mesmo. Eu também pinto. Compro umas telas, tinta. Faço uns quadros abstratos. É uma terapia. Vejo muita televisão também.
Novela?
Não. Discovery Channel e filme de guerra. Eu adoro filme de guerra, fico procurando.
Então você é a mulher ideal: tem um bundão e adora filme de guerra! (risos) E você está separada?
Pois é, pra você ver…Casei pela segunda vez há três anos, até aparece a cerimônia no documentário. Achei que ia ser pro resto da vida. Mas não deu certo.

Ficou muito triste?
Quem? Eu, nêga? Eu não! Difícil é me ver abalada. Eu tenho mais do que esperei, tenho meu trabalho, minha família. A única vez que me deprimi foi quando eu perdi minha avó, que me criou, e fiquei sem nada, e aí tive que fazer programa. De lá pra cá, nunca mais. As mulheres se vitimizam muito, sofrem além da conta. Quebrou a unha e parece que quebrou a mão. Não pode. Eu sou resolvida com tudo. Me tranco no quarto, choro, choro e no dia seguinte, bola pra frente.
Você ainda é muito assediada?
Ah…Um pouco. Mas eu finjo que nem vejo. No momento não quero paquera e nem relacionamento. Cantada, só pra elevar a autoestima.
Já fez plástica?
Há quatro anos fiz lipoaspiração e botei silicone nos seios. Só. Não faço ginástica, não passo cremes e nem cuido muito da alimentação, não. Mas até que estou muito bem, pelo menos é o que o espelho me diz. Amém!
Fonte: Revista Época por Martha Mendonça |