A comida pode salvar um relacionamento?
Publicado por Tulio em 10 abril, 2010.

O mercado Campo dei Fiori, em Roma, visitado por Paula todas as manhãs
Minha avó sempre me disse que homem se conquista pelo estômago. O ditado é antigo e eu sempre desconfiei de sua veracidade. Não é muita falta de romantismo?! Esses dias ele me voltou à cabeça enquanto eu lia sobre o lançamento de um livro nos Estados Unidos. “Keeping the feast”, algo como “Mantendo o Banquete”, da jornalista Paula Butturini, fez-me acreditar que talvez o conselho da minha avó não seja só reflexo de uma sociedade utilitarista além da conta. No livro, Paula conta como cozinhar salvou seu casamento com o também jornalista John Tagliabue e manteve sua sanidade mental.
Paula e John se conheceram na década de 1980 em Roma, na Itália, onde trabalhavam como correspondentes. Em 1987, trocaram a cozinha italiana que embalara o início do romance pela culinária polonesa. John fora designado para coordenar o escritório do “The New York Times” em Varsóvia, agitada pela iminência do fim do regime comunista. Mas a temporada do casal no Leste Europeu foi traumática. Paula foi agredida enquanto cobria uma manifestação popular. John ficou gravemente ferido após levar um tiro durante a cobertura da deposição do ditador romeno Nicolae Ceauşescu. Ferido e traumatizado, o casal decidiu voltar para a Itália para tentar resgatar os bons momentos que haviam vivido. Mas a depressão em que John mergulhou fez da nova temporada italiana um desafio à sobrevivência do casamento. Paula se apegou a sua rotina diária – cozinhar refeições para os dois – em uma tentativa de reanimar o marido e de manter sua própria cabeça ocupada com assuntos mais amenos.
“Preparar as refeições favoritas da família, pratos que nós conhecíamos e de que gostávamos há muito tempo, foi de grande ajuda para o meu marido”, me contou Paula em mensagens eletrônicas que trocamos esta semana. “Essas refeições traziam de volta boas recordações, lembravam-no dos tempos em que ele não estava doente, da sua infância, dos dias em que as coisas eram simplesmente mais fáceis para ele.” Para Paula, pensar e preparar com carinho as refeições também serviu como terapia. Todas as manhãs, ela ia até um mercado ao ar livre no centro de Roma, o Campo dei Fiori, comprar os ingredientes. “Sair do apartamento todas manhãs durante o período em que meu John esteve tão doente era muito terapêutico. Eu respirava fundo, andava até o mercado, comprava comida simples e fresca, carregava tudo de volta para casa e me concentrava em tornar aqueles ingredientes em uma comida gostosa e nutritiva para nós dois. Se eu não tivesse uma desculpa para sair e deixar minhas preocupações para trás, talvez eu não tivesse forças para suportar aquele período”, diz Paula. “Poder ir até o mercado me manteve sã. Cozinhar e dividir as refeições com John nos manteve juntos.”
Conversar com Paula me fez entender que eu estava levando as recomendações da minha avó muito ao pé da letra. Não se trata de conquistar alguém com comidas gostosas. Trata-se de ser capaz de um gesto de carinho com o outro. É uma questão muito mais emocional e afetiva do que de gula. Vendo meu namorado estressado, com os nervos em frangalhos nos últimos dias, resolvi preparar um jantar para ele se sentir amparado. Nada muito sofisticado. Em vez de esquentar o arroz e grelhar o frango de todas as noites, decidi fazer um risoto com o que encontrei nos armários e preparei um picadinho de frango com legumes. Peguei o super tempero secreto preparado pela mamis, misturei o arroz, tomate sem pele, palmito picado e requeijão. Cortei abobrinhas, cenouras, tomate e cebola para refogar junto com os bifes de frango que cortei em pedacinhos. Reguei tudo com shoyo. Uma hora depois coloquei o jantar na mesa. Meus amigos, estava horrível! O pobre do namorado, tentando agradar, disse: “está ótimo seu macarrão”. Acontece que decidi usar arroz integral em vez do comum, sem saber que ele demora muito mais tempo para cozinhar. Para ajudar, esqueci a panela no fogo enquanto escutava o namorado desabafar. O arroz, além de duro, torrou. O picadinho de frango tinha gosto de shoyo queimado, se é que isso é possível. Com a minha mania de não usar óleo, o frango pegou na panela e virou um refogado de queimado quando eu joguei o shoyo. Quando acabou a tortura, digo, a refeição, atacamos os restos de ovo de Páscoa. Foram exterminados. O arroz que sobrou foi para o lixo, apesar da minha dor no coração.
O jantar foi um fracasso. Mas, quando terminou, o namorado parecia bem mais à vontade! Tínhamos esquecido os problemas do dia a dia, dado boas risadas, passado um bom tempo juntos. Mas será que um relacionamento sobrevive a anos de jantares desastrosos? Perguntei para a Paula se essa história de cozinhar não era só para quem sabe, tem tempo e pode gastar muito com ingredientes especiais (os verdadeiros gourmets). “Cozinhar não é nada glamouroso”, ela me respondeu. “Eu até concordo que é necessário um pouco de tempo, mas, se uma receita tiver mais de 15 ou 20 ingredientes, eu não faço. As melhores comidas são as mais simples, feitas com ingredientes naturais, comuns.” Lembrei-me das receitas que fazem sucesso lá em casa e que foram passando de geração em geração. É verdade, são todas simples: o ovo mexido com cheiro verde que meu bisavô adorava e ensinou a minha mãe fazer, o bacalhau com batatas e cebola da bisa portuguesa, a polenta ao molho de frango da bisa italiana. O doce de banana da mesma bisa italiana que já foi parar no teto da cozinha depois que a panela de pressão explodiu. O pudim de furinho (como eu dizia quando era pequena por causa do suspiro que vai em cima) que meu avô adorava.
Ao terminar o pequeno inventário gastronômico da família, tive de dar razão à minha avô e à Paula: cozinhar é um ato de amor (seja ele fraternal ou entre marido e mulher). Mas ainda não estou tão certa de que carinho ao cozinhar basta por si só. Vocês acham que um relacionamento sobrevive a uma péssima cozinheira?
Fonte Época
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