
Naqueles bons tempos, em que raramente algum cidadão Diamantinense empreitava uma viagem a Capital do Estado, não havia ônibus, apenas o trem de ferro, que descia singrando a serra do Paraúna, numa lentidão continua, gastava-se exatamente um dia de viagem.
Quando chegava ao destino, o passageiro estava todo empoeirado de fuligem de carvão, a locomotiva ainda era a famosa ” Maria Fumaça” movida a lenha, apelido apropriadissimo visto que ia expelindo fumaça pelo caminho.
Havia até o famoso guarda pó, para aqueles viajantes mais assíduos, era como um jaleco de médico, vestia-se logo no inicio da viagem e chegando ao destino, este já estava preto de fuligem, preservando a roupa.
As viagens de trem de ferro, eram como uma verdadeira maratona, alem de lenta, existiam várias paradas, em corruptelas, vilas, fazendas, povoados e mesmo no meio do nada, para abastecimento de água e lenha.
O que sempre me lembro, era do cheiro especial das manzanas (maçãs) Argentinas, um cheiro especial, delicioso, característico, vinham embrulhadas em papel roxo.
Uma espécie de garçom, passava de vagão em vagão, oferecendo , em uma cesta de vine, as especiarias: biscoito de goma, biscoito quebrador (de polvilho), guaraná Antárctica e chocolates vários. Era como uma festa verdadeira, oportunidade única de saborear uma maçã e tomar um guaraná Antárctica.
Detalhe: existiam três categorias de vagões de passageiros: primeira classe, com poltronas alcochoadas, reclináveis, macias, vagão limpissimo, cortinas de renda nas janelas, tratamento VIP, a segunda classe bem próxima da primeira, com bancos de madeira forrados com espuma e couro apenas, não eram reclináveis, nem tão macios eram.
Obviamente, a terceira classe, era um desastre verdadeiro, a passagem custava menos da metade do preço, e os bancos eram de madeira pura, sem forro, tipo bancos de praça. As janelas, via de regra eram empenadas, não abriam para ventilar o vagão, e quando abriam, não tinham a cortina para tapar o sol e o garçom, com as famosas manzanas Argentinas, sequer se dava ao trabalho de visitar o vagão.
Famoso Mascate de Diamantina, tendo que ir a Belo Horizonte, passa na porta da Joalheria centenária da família Pádua, e dirige-se ao proprietário todo solícito: Toninho, estou indo a Belo Horizonte agora, você deseja alguma coisa da Capital? Algum recado, alguma encomenda? O Toninho Pádua, disse: muito obrigado fulano, boa viagem.
O viajante insistiu, o Toninho muito espirituoso e na presença de varias pessoas disse: aliás, quero sim fulano, por favor diga ao meu irmão em Belo Horizonte na Joalheria tal, que estou com umas encomendas de jóias prontas aqui para ele, só esperando um portador de confiança para mandar.
O viajante, naquele momento, não entendeu a galhofa e disse: ok, darei seu recado.
Andou uns 100 metros, a ficha caiu ele voltou e disse ao Toninho: mas escuta aqui, eu não sou de confiança? Se sirvo para levar recado, sirvo também para levar a sua encomenda de jóias?
O dono da Joalheria, apertado com a brincadeira disse: não fulano, preocupe não, é que meu irmão é muito sistemático, e se eu enviar a mercadoria por pessoa estranha, que ele não esta acostumado, ele não recebe, manda de volta, tendeu? rsrsrsrs
Luciano Becheleni é residente de Diamantina e especialista em mineração
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Revendo estas fotos de vagões e locomotivas ferroviarias, que hoje no Brasil, infelizmente faz parte de um passado quase esquecido, me vem uma saudades dos meus tempos de guri, quando se pensava em viajar, tinha de se pegar um trem. Bons tempos !