Um projeto de lei e um documentário chamam a atenção para o drama dos pais separados que são afastados dos filhos por mentiras e manipulações da mãe

Rafaella, de 29 anos, com a foto do pai. “Fui usada como um fantoche por minha mãe. É triste.”
Dos 8 aos 26 anos, a publicitária Rafaella Leme odiou o pai. Motivo não havia. Mas isso ela só sabe hoje, aos 29. Quando fez 5 anos, seus pais se separaram. A mãe tinha sua guarda e a do irmão mais novo. Rafaella ainda tem a lembrança inicial de voltar feliz dos fins de semana com ele. Eram passeios no Aterro do Flamengo, de bicicleta ou de skate. Mas, assim que ele arrumou uma namorada, tudo mudou – a começar pelo discurso de sua mãe. “Ela passou a dizer o tempo todo que ele não prestava, que era um canalha e não gostava de verdade da gente. Era assim 24 horas por dia, como um mantra”, afirma. Rafaella acreditou. Mais: tomou a opinião como sua.
Quando Rafaella era adolescente, o pai mudou-se para o Recife, a trabalho. Nas férias, ele insistia para que os filhos o visitassem. “Eu tinha nojo da ideia. Só ligava para ele para pedir dinheiro, para mim era só para isso que ele servia”, diz. Tudo piorou quando a mãe veio com a informação de que ele estivera no Rio de Janeiro e não fora procurá-los. Durante dez anos, Rafaella cortou relações com o pai. Por mais que a procurasse, ela preferia não retornar. Até que ele parou de tentar. O laço já frágil que existia se rompeu. Aos 26 anos, ela foi fazer terapia. No divã, percebeu que não tinha motivo para não gostar do pai. Resolveu procurá-lo. “Foi uma libertação. Por mais dedicada que minha mãe tenha sido, ela nos fez de fantoches, de arma contra o ex-marido.” Com a aproximação do pai, foi a vez de a mãe lhe virar as costas. Só um ano depois voltaram a se falar. Rafaella se emociona todas as vezes que conta sua história. “Só quem passa por isso e se dá conta sabe a tristeza que é”, afirma.
O relato de Rafaella é parecido com o de muitos filhos de pais separados – com a diferença do desfecho. Nem todos chegam à revelação de que foram vítimas da síndrome da alienação parental. O termo foi cunhado na década de 80 pelo psicanalista americano Richard A. Gardner. Significa um distúrbio mental causado pela campanha de difamação do genitor que tem a guarda contra o outro. Mães, na maior parte dos casos, já que, no Brasil, elas detêm a guarda das crianças em 95% dos casos de separação. Pode acontecer de várias maneiras, de não passar telefonemas e suprimir informações médicas e escolares a inventar motivos para que as crianças não vejam o ex ou mudar de endereço sem avisar. O mais grave, no entanto, é, como definiu o próprio Gardner, a “programação” para que a criança passe a não gostar do genitor que não vive com ela, o que se dá por palavras, atitudes silenciosas ou pela implantação de falsas memórias.
O número de casos de alienação parental no Brasil e a grita dos pais chegaram a um nível tão alto que provocou o Projeto de Lei 4.053/2008, que no último dia 15 foi aprovado pela Comissão de Seguridade Social da Câmara dos Deputados. O projeto, de autoria do deputado Régis Oliveira (PSC-SP), define e penaliza a alienação parental: o genitor que tentar afastar o filho do ex pode perder a guarda e, se descumprir mandados judiciais, pegar até dois anos de prisão. Há outros sinais de inquietação da sociedade com o assunto. Desde abril está sendo apresentado por todo o país o documentário A morte inventada. O filme, do cineasta carioca Alan Minas, de 40 anos, revela o drama de pais e filhos que tiveram seu elo rompido após a separação conjugal, além de apresentar a opinião de especialistas. Jovens falam de forma contundente e emocionada sobre como a alienação parental interferiu em sua formação. Pais dão testemunho sobre a dor da distância. Diante do inferno em que se transformaram suas vidas e da impotência diante disso, muitos desistiram – o que costuma ser o pior desfecho. Minas diz que foi o tema que o “escolheu”. Há mais de um ano ele foi afastado da filha, que hoje tem 10 anos. Sem entrar em detalhes, ele conta que sofre com a alienação clássica: campanha de difamação junto à criança, descumprimento da visitação e falsas acusações. “Como não encontrei voz como pai e cidadão, resolvi fazer o filme”, afirma. As salas de exibição têm estado cheias de pessoas com histórias parecidas. Nos debates e nas palestras que acontecem depois da apresentação do documentário, vítimas fazem questão de dar seu relato. A procura foi tamanha que A morte inventada saiu em DVD no mês passado.
Martha Mendonça
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Esta acusação às mulheres e mães de estar a lavar o cérebro dos
seus filhos faz lembrar a caça às bruxas ou a inquisição. Parece
que não há qualquer outra razão para um filho não querer se
encontrar com o seu pai que não seja por estar a ser manipulado
pela “bruxa” da mãe, que é mulher e por isso um ser naturalmente
dado à manipulação – uma bruxa que devemos queimar ou apedrejar na
praça pública. As causas mais prováveis para uma criança se recusar
a ver um dos genitores são outras. A mais grave de todas é o abuso
sexual por parte desse genitor e vários estudos (em Espanha e nos
Estados Unidos) indicam que a percentagem de falsas denuncias por
crimes de natureza sexual contra crianças é muito mais baixa do que
a percentagem de falsas denúncias por outros crimes. Quando as
crianças dizem que estão a ser abusadas o mais provável é que
estejam mesmo a sê-lo. Em Espanha estão a legislar em sentido
inverso ao do Brasil: estão a proibir a utilização do conceito de
alienação parental na justiça. E a promover a denuncia de peritos
que utilizem esse conceito em autos periciais às Ordens
Profissionais respectivas. O conceito de alienação parental não é
reconhecido no mundo da Ciência. A Organização Mundial de Saúde não
o reconhece. O DSM (American Psychiatric Association’s Diagnostic
and Statistical Manual) não o reconhece. Richard Gardner (que
desenvolveu esta teoria da Alienação Parental) não era psicólogo
nem psiquiatra. Era médico, sim, mas clínico geral. Desenvolveu a
sua teoria para defender pais (homens), ex-combatentes na Guerra da
Coreia, todos acusados de violência doméstica contra suas mulheres,
em seus processos de divórcio e regulação de poderes paternais.
Gardner defendia também, nas suas primeiras publicações, a
pedofilia. Vejam a reportagem Americana da PBS no youtube
intitulada “Breaking the silence: Children’s stories” -
http://www.youtube.com/watch?v=lR4pMTwTXg0 Ou a do canal português
RTP, sobre um caso recentemente passado em Portugal intitulada
“Filha Roubada”-
http://ww1.rtp.pt/blogs/programas/linhadafrente/?FILHA-ROUBADA.rtp&post=5873
Muito bom mesmo Tulio! O caso de Rafaella não é tão incomum aqui, porém existem os tais “pais ausentes”, do tipo que só aparece na hora da festa e das fotos. Boa parte das mulheres divorciadas acaba arcando sózinha com a educação dos filhos, e os pais normalmente são mais presentes quando os filhos são menosres, depois com o passar do tempo tudo fica a cargo da mãe , é o que tenho observado desde que entrei para o rol das divorciadas!
Eu sou separada do pai dos meus três filhos.
Ele, advogado. Comi o pão que o diabo amassou depois da separação. Ele quase conseguiu um atestado de pobreza para não dar a pensão alimentícia dos filhos. É lógico, que com isso, o meu padrão de vida despencou. E ele esbanjava…na cabeça das crianças, eu era a megera, que só cobrava deveres e não tinha nem como pagar um cinema para os meus filhos, enquanto ele os comprava com tudo do melhor e do bom. Mas, nunca, em momento algum coloquei os meus filhos contra o pai.
Fernanda.
Conheço casos muito parecidos. Mas concordo que nada disso se resolve juridicamente. A decisão de afastar um filho de seu pai passa pela insegurança da mãe em não poder entender o que está por trás do seu coração magoado ou destruído. Que sentimento é esse, que de forma egoísta quer dominar a vida de um filho ou de um marido que se vai. Não tem a ver com ser mãe ou mulher. Tem a ver com assumir de cabeça erguida as atitudes que tomou, os erros que cometeu, tentar melhorar e não acusar o outro daquilo que não teve competência pra administrar.
Outro dia em uma festa de um ex-marido ouvi de um amigo comum o seguinte comentário –
Seu filho é uma pessoa feliz e você é responsável por isso. Pela forma como conduziu sua separação e pela maneira que se relaciona com o pai.
Agradeci envaidecida, mas fiquei surpresa e orgulhosa de algo que nem me dava conta.
Deve ser isso, querer a felicidade do outro não deve ser tão dificil assim pra ninguém.
Interessante e providencial o argumento desse filme. Vou tentar achar o DVD.
RT @feistauer A morte inventada – http://bit.ly/BA8wE
A morte inventada – http://bit.ly/BA8wE
Opa, mas isso é o que mais há, desde o tempo de dom João Charuto. Já li por aí que homens tem a posse das mulheres por instinto, e as mulheres o fazem por questão de sobrevivência – alguém que banque financeiramente sua vida e a dos filhos.
Por isso, numa separação, a mulher se sente, mais que traída afetivamente, traída pela vida, e aí começa essa baixaria sem-fim.
Conheço um monte de casos de filhos que simplesmente não falaram com o pai até que esse partisse dessa pra uma melhor, e aí me pergunto: como fica a cabeça dessa pessoa? Será que algum dia, como Rafaela, ela se separou da mãe e tentou pensar por si própria? Talvez não.
Não sei, porém, se uma simples lei poderia dar um jeito nisso. Isso é questão doméstica, interna, e pode acabar gerando a figura do filho que, além de doutrinado, acabe virando um hipócrita.
A saída, a meu ver, é o tempo e a evolução das coisas (que, aliás, não é muito crível): mulheres inteiras, assumindo sua vida inteiramente, não programadas pra só ser alguém se tiver um macho do lado. E parar com essa história de que a maternidade traz uma aura marial à mulher, como se os filhos lhe dessem o direito das maiores imbecilidades, inclusive dormir com um cara um dia e considerá-lo um cafajeste no dia seguinte. Esse comportamento já prova que mães não são tão magnânimas assim.