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Assombração e Cobra de Vidro

Publicado por Luciano Becheleni em 18 de março, 2009.

 

Garimpo

Causos do Garimpo.

Assombração e cobra de vidro.

Peãozada do garimpo, adorava uma branquinha, obviamente as escondidas.
Os sacripantas compravam nas fazendas vizinhas ao garimpo, e escondiam no mato, nas moitas. A noite se esbaldavam na marvada, a cada 10 ou 15 minutos, desapareciam da rancharia, sumiam no mato e voltavam com aquela cara alegre, lambendo os beiços.


Eu sabia, mas não podia fazer nada. O pinga era proibida no garimpo, pelo menos, durante o expediente de trabalho.
Um amigo foi visitar-me , passando um dia corrido. A certa altura , na hora do jantar , ele me perguntou: você tem uma pinga da boa aí, para abrir o apetite? Eu disse: eu não tenho, pinga no garimpo é proibido; mas, se você perguntar a qualquer peão aqui ele com certeza absoluta, lhe oferecerá um trago. Só tem um detalhe: a pinga fica no mato, escondida e você terá que se deslocar até onde está a marvada.

O problema maior, eram as pescarias à noite, na verdade, peixe não pegavam nenhum, uma turma grande se deslocava para a beira do rio, com a desculpa de pescar, e tomavam todas a que tinham direito.

A questão era que, no dia seguinte, as 06:00 da manhã, já estávamos de pé, tirado o jejum com uma farta e lauda refeição de feijão tropeiro e em seguida íamos à faina.

Aqueles que se exaltavam na branquinha, costumavam acordar atrasados e perder a hora, e obviamente, era um trabalho rústico, seqüencial, dependia de toda a turma junta .

Uma noite, a minha cozinheira chegou a rancharia toda descabelada, falando com a língua enrolada, perguntei a ela: onde você estava Rita? Tomando todas é? Ela sequer respondeu, foi deitar-se.
Pensei, estão extrapolando, até a cozinheira eles já cooptaram!!!

Peguei uma prancha de madeira de mais ou menos dois metros de comprimento, por quarenta centímetros de largura, apanhei cinco velas no maço, e rumei para a beira do rio, um pouco acima onde a peãozada estava reunida.

Lá chegando, coloquei a tábua no rio, acendi as cinco velas e soltei rio abaixo. Fui de mansinho, sem fazer barulho, com algumas pedras nos bolsos previamente escolhidas, pedras arenosas, quando atiradas se desmancham, para bem perto onde eles estavam reunidos.

Assim que viram a tabua de madeira descendo o rio, com as velas acesas, logo ficaram apreensivos, detalhe: uma escuridão terrível, mal se enxergava um palmo adiante do nariz.

Alguém logo disse: é um caixão descendo o rio com um defunto, vamos embora, isto é assombração!!!!
Um alvoroço danado, neste exato momento, joguei umas duas pedras arenosas, e estas, ao se desmancharem ao bater nas arvores, transformavam em pequenos grãos, e acertando alguns peões, que de pronto iniciaram uma gritaria e correria, dizendo estarem sendo alvejados pelo defunto e seus asseclas.

Simultaneamente, havia gravado algumas vozes, eu mesmo fiz a gravação, com nome de alguns garimpeiros, como o do Sebastião, e liguei o gravador, bem baixinho, atrás de uma arvore, e este passou a sussurrar: Sebastiãooooooooooo, Nonatooooooooooo, me ajudemmmmmmmmmmm .!!!!!!

Olha, sem exagerar nem aumentar um milímetro, houve peão que borrou as calças, teve que tomar banho ao chegar ao rancho.

O mais engraçado, foi exatamente a falta de solidariedade entre eles, naquele momento, que o gravador iniciou sua fala, saíram todos em disparada, como se fosse: cada um por si, e Deus por todos rsrsrsr.

O problema maior, foi que um peão desmaiou de susto e foi literalmente abandonado pelos demais, deixado no caminho na mata. Eu vinha logo atras, com o gravador na mão e uma lanterna de pilha ligada, quando deparei com um peão estirado no chão.

Minha preocupação maior, eram os seus batimentos cardíacos, assim sendo, abaixei e peguei o braço dele apertando-lhe o pulso, para sentir os batimentos cardíacas, estes, deveriam estar na ordem de 200 por minuto.

Creio que fiz uma pressão mais forte no braço do peão, para poder sentir as suas pulsações, e neste exato momento, ele acorda, vê alguém segurando-lhe o braço apertadamente, no escuro, da um grito de pavor, dispara numa corrida e some no meio da trilha, e eu atras com a lanterna chamando-o, creio que deve ter atingido a velocidade aproximada de uns 60 km por hora, a pé fez até rastro de poeira rsrsrsrs.

Alguns minutos após, dei uma volta maior, e fui ao meu rancho guardar o gravador e a lanterna.

Dirigi-me a rancharia da cozinha, e estavam todos lá, tomando água com açúcar e café, alguns brancos, outros calados, todos macambúzios.

Perguntei se estavam todos bem, disse que havia escutado alguns barulhos estranhos, vozes estranhas, mas ninguém falou absolutamente nada, todos se locupletaram e ficaram calados.

No dia seguinte, só se ouviam cochichos, nada mais rsrsrs, nesta brincadeira, acabei perdendo um peão, ele pedira as contas, justo o que borrou as calças.
E nunca mais, ousaram ir a beira do rio, para se esbaldaram na branquinha!!!!

Causo verídico, com testemunha ocular de vista (e pleonasmo tb) ocorrido no Rio Jequitinhonha, na década de 80.

 

Luciano Becheleni é residente de Diamantina, MG e especialista em mineração

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Comentários do Usuário

  1. eHelp Carolina | março 19th, 2009

    Novo artigo: Assombração e Cobra de Vidro http://tinyurl.com/dayqjl

  2. Anderson PessôaNo Gravatar | julho 19th, 2010

    Muito boa estória.

    Vou passar para meus amigos.

    Morrir de rir.

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    Abraços.

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