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“Causo” da Catalepsia

Publicado por Luciano Becheleni em 10 de fevereiro, 2009.

Igreja

No século XVII e XVII , na região de Diamantina, havia o costume de enterrar os mortos em Carneiras, pequenas covas emparedadas, nos quintais das Igrejas, via de regra, nas laterais.

Praticamente todas as famílias naquela época, pertenciam a uma ordem Religiosa, e assim que falecia um membro da mesma, as exéquias ocorriam e o falecido era velado e enterrado na Igreja, nas Carneiras.

Um detalhe interessante: não se velava o “dito cujo” a noite toda.  Assim que escurecia, o sacristão fechava a Igreja e ao raiar do sol no outro dia , era novamente aberta, para dar continuidade as exéquias. Luz elétrica sequer existia.

Outro detalhe interessante: os mortos eram enterrados juntamente com suas jóias, anéis, pulseiras, brincos, pingentes, etc.

Pois bem, havia também, o tradicional badalar dos sinos. Cada tipo de toque significava um evento: havia o toque de morte, que significava que alguém pertencente aquela Ordem Religiosa havia falecido, o toque de missa, o toque de nascimento, o toque festivo, toque para novenas, trezenas e etc. . Aqueles toques significavam para a época, um meio de comunicação bastante eficiente. Ouvia-se o badalar dos sinos, o povaréu corria as ruas, para saber o que ocorrera.

Maria Quitéria, moça bem apessoada, de beleza ímpar, de casamento marcado, família tradicional, falecera. Os sinos bimbalharam anunciando a tragédia. Em pouco tempo a notícia espalhara e a Igreja do Carmo, estava lotada: crianças, velhos, casais, mendigos, transeuntes, velando a Maria Quitéria.

O Sacristão, vez por outra, corria os olhos, como que certificando de que a moça estava mesmo morrida (sic!). Assim, nestas olhadelas, ficou estarrecido e vislumbrado com o tamanho do anel de Diamante, de fina pureza e excelente lapidação, no dedo da Maria Quitéria. Aquilo deveria valer uma pequena fortuna para o Sacripanta.

Pois bem, assim que findou o dia, as portas da Igreja do Carmo foram fechadas, os lampiões apagados, a população, os familiares, recolheram-se aos costumes, a espera do dia seguinte, para que se completasse as exéquias.

Lá pelas tantas, dizem que por volta da meia noite, eis que o sino da Igreja do Carmo, inicia um toque frenético e desordenado, fora dos padrões estabelecidos.

Em alguns minutos, dezenas de curiosos estavam prostrados a porta da Igreja, querendo saber o que estava acontecendo.

Alguém surssurou: chamem o Sacristão, para abrir a Igreja. O pobre homem morava longe, nas cercanias da Cidade.
Em poucos minutos, chega um emissário, que havia ido a procura do Sacristão, ofegante, diz aos familiares da falecida e ao povo: o Mané Galdino não esta em sua casa. Espanto geral!!! como não esta em casa? Aquelas, eram altas horas, de gente de bem estar dormindo o sono dos justos!!!

O sino continuava a bimbalhar frenético, com pequenas pausas.

Eis que alguém, braveja: arrombemos a porta dos fundos da Igreja!!!

Assim foi feito. Alguns cavalheiros arrombaram a porta dos fundos da Igreja do Carmo, adentraram com seus lampiões e lamparinas, singraram os corredores até alcançarem a Nave principal da Igreja.

Qual espanto dos cavalheiros, estarrecidos, a olharem uns para os outros, durante alguns segundos: Lá estava a Maria Quitéria de pé, puxando as cordas do sino, com a mão esquerda toda ensangüentada e o Sacristão, estirado no chão, mortinho da Silva.

O que ocorreu: o Sacristão, por volta da meia noite, abriu a Igreja pela porta dos fundos, fechou-a, dirigiu-se para o caixão onde a defunta repousava para o seu sono eterno, abriu-o, e tentou retirar o lindo e exuberante anel de Brilhante, que estava no dedo da Maria Quitéria.

Não conseguindo seu intento, pois os dedos da Maria Quitéria estavam inchados, o Sacripanta tirou um canivete afiado da sua algibeira, e tentou cortar o dedo da moça, assim que iniciou o processo, a Maria Quitéria acorda, vê-se dentro de um caixão, dentro da Igreja, com iluminação parca.

Apavorada, senta no caixão e abraça fortemente o Sacristão, gritando freneticamente de medo e pavor!!!!

O Manoel Galdino, sacristão católico fervoroso, medroso ao extremo, estava mais apavorado que a Maria Quitéria, tentava desvencilhar-se do defunto abraçador a todo custo, quanto mais ele tentava sair dos braços da moça, mais esta o agarrava fortemente e gritava. Imaginem a cena Dantesca!!!!!!

Pois bem, assim que conseguiu seu intento, o Manoel Galdino, sai em disparada, bate a cabeça contra a quina da escadaria, cai estirado e literalmente morto no chão. Provavelmente pereceu de um ataque cardíaco, mas naquela época, não haviam médicos para atestar a ” causa mortis” .

A Maria Quitéria, acalmou-se um pouco, assim que tomou conhecimento da real situação em que se encontrava, aproveitando a parca luz do candeeiro do Sacristão, dirigiu-se a corda do sino e iniciou seu pedido de socorro.

Os cavalheiros que haviam arrombado a porta dos fundos da Igreja do Carmo, logo abriram a porta principal e a família , os curiosos, tomaram conhecimento dos fatos. Dizem que até banda de musica foi chamada, para comemorar a volta ao seio da família, da Maria Quitéria.

Causo verídico, contado por Dona Arlêta, avó da minha esposa, que foi testemunha ocular de vista (com pleonasmo). Este fato ocorreu por volta do ano de 1880.

©Luciano Becheleni reside em Diamantia – Especialista em mineração.

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